domingo, 6 de dezembro de 2009

sábado, 5 de dezembro de 2009

Romantismo e Tim Burton


Oi! A partir do dia 20/12 estarei postando mais ativamente no blog. Talvez o que eu escreva aqui já esteja sendo discutido por vocês nos ensaios no Cafofo, mas assim iremos afinando nosso diálogo à distância...

Estou fazendo uma pesquisa sobre o Romantismo para aprofundar um artigo que estou escrevendo para o próxino número do Performance Journal. Penso que nós devemos dar uma olhada neste movimento porque a obra do Tim Burton tem influência de muitas características do período e movimento Românticos.

Dois aspectos me chamam a atenção: o papel do herói e a unificação de características opostas. Em um texto adapatado do A Guide to the Study of Literature: A Companion Text for Core Studies 6, Landmarks of Literature encontrado no link http://academic.brooklyn.cuny.edu/english/melani/cs6/rom.html, há uma passagem no subtítulo The Everyday and The Exotic, que fala da fascinação dos românticos com existências que são anteriores ou opostas ao conceito estabelecido pela razão objetiva. Combinações paradoxais como a unificação do natural e do sobrenatural ou uma alma bela em um corpo feio, são características que se desenvolveram na literatura e artes daquele período. Como variantes desta combinação paradoxal são citados O Corcunda de Notre Dame, de Victor Hugo e Frankenstein, de Mary Shelley.
Podemos pensar em Edward, Mãos de Tesoura, que tem uma clara influência de Franskenstein, mas que também apresenta características do herói romântico. O individual, único e exêntrico são aspectos valorizados pelo Romantismo.

A imaginação passa a ser entendida como faculdade mais importante da mente humana, desafiando o conceito da supremacia da razão, herdado do Iluminismo. A valorização da natureza é também uma característica que marca o movimento, ocorrido durante a Revolução Industrial, na Inglaterra. Símbolos passam a ganhar grande valor na arte romântica por sua riqueza em comunicar sinigficados simultâneos...

E outro aspecto significativo: é durante o Romantismo que as crianças passam a ser compreendidas pela primeira vez, como indivíduos (embora já existam estudos literários que negam essa afirmação, a maior parte das fontes que li, a enfatiza). A inocência das crianças tem grande importância para os Românticos.

Parece-me que várias destas características podem ser encontradas no trabalho de Burton. É provável que existam estudos sobre isso... Irei pesquisar. Também vale dar uma checada no movimento alemão Sturm and Drang que influenciou o Romantismo.
Hoje pela manhã lembrei de O Homem-Elefante (The Elephant Man), de David Lynch. O filme é de 1980 e foi baseado na vida de Joseph Merrick, que viveu de 1862 a 1890.
(Sei que vocês querem concentrar mais no texto do Burton, mas acho que ainda vale um cruzamento de referências.)

Aqui vai o trailer, mas vocês encontram todo o filme em partes, no Youtube:

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Saramandaia

Gente, esbarrei nuns vídeos da novela Saramandaia. Era uma novela da Globo - antes que me perguntem, passou antes de eu nascer - que tinha esses personagens, cada um com um "só que".

Isso me fez pensar em umas possibilidades. A maioria dos personagens tem alguma esquisitice, mas elas tiveram variações diferentes no tempo. Por exemplo, tem um cara que tem formigas saindo constantemente do nariz, e ele encara isso como uma coisa normal, tipo uma alergia. Tem outros personagens cuja esquisitice demorava pra aparecer, tinha um mistério cercando, tipo um que virava lobisomem e outro que tinha asas.

Outras esquisitices eram ligadas a fatos específicos. Tipo a personagem da Sonia Braga cada vez que ficava excitada pegava fogo, ou o seu Cazuza, cujo coração saía pela boca quando ficava nervoso. Já outros levaram a sua esquisitice perto de uma normalidade ao longo da novela, mas isso mudava no final. Por exemplo a Dona Redonda (Wylza Carla) era uma mulher obesa, que no último capítulo explodia, gerando um terremoto na cidade.

Achei que pensar nessas variações em relação ao tempo e às coisas que geram a esquisitice podem ser legais quando pensarmos na construção de eventos e relações.

Lembrei também de uma coisa que o Ricardo tinha falado quanto aos personagens do livro, que, mesmo que as esquisitices sejam tratadas com equivalência, na prática as implicações físicas são muito diferentes (é muito diferente ter um olhar fixo e ser uma ostra). Aqui também há uma diferença grande entre ser obesa e virar lobisomem. Sei lá, acho que dá pra pensar nisso.

Embedei uns vídeos aí embaixo:


Seu Cazuza



Zico Rosado



Aristóbulo



João Gibão



Dona Redonda


Um primeiro enunciado de trabalho.

Como resultado da primeira, e bastante intensa, semana de trabalho (que foi muito bem relatada e contextualizada pelo Gustavo em posts anteriores), deduzimos um primeiro enunciado de trabalho.

Trata-se de um ponto de partida comum para que cada um possa começar a construção de suas criaturas, o que acontece individualmente num primeiro momento.

Buscamos criar um enunciado que representasse os principais elementos que identificamos como componentes do livro e de seus personagens, e vale dizer que é só um primeiro momento criativo comum, que provavelmente vá sofrer modificações radicais mais tarde. Aí vai o encunciado:

"Cada um cria um personagem com um corpo sensorial bizarramente específico que se apresenta vivendo um evento rimado que nasce e morre num espaço sem parâmetros. Este personagem deve ter um par com quem estabelece uma relação física também específica."


Nos parece que aí estão contidas as características que ao mesmo tempo são mais evidentes na obra e também mais nosinteressam. Metodologicamente a idéia é dar um tempo para que cada um trabalhe nisso e assim que possível mostramos os primeiros passos das criaturas uns para os outros.

Um resumão dos primeiros dias de trabalho

1o. dia

Começamos a semana tentando determinar como seria esse trabalho na prática. Como temos um tempo muito curto até as apresentações, é importante fazer certas escolhas para não nos perdermos num processo cheio de desdobramentos, sem conseguir dar conta da encenação propriamente dita.

No primeiro dia, relemos o projeto e pensamos em como seriam as nossas funções exatamente no decorrer desse tempo. Constatamos que, de fato, o que foi previsto no projeto acabou por ser uma boa escolha. Eu, Neto, Elisabete, Ricardo vamos estar em cena, enquanto Cândida e Cris, por não estarem na cidade nesse momento inicial, e também por terem mais experiência e sensibilidade na função de dirigir, vêm mais tarde tentar costurar e trazer novas propostas para o que estamos desenvolvendo. Percebemos também que alguns de nós têm interesse em se aproximar de algumas funções específicas, por exemplo, o Neto quer estar mais perto da criação de luz, e eu da música.

Quanto ao nosso ponto de partida, a obra do Tim Burton e o livro O rapaz ostra, já de cara concordamos que é importante não cair na opção fácil de reproduzir determinadas características estéticas, mas, ao invés disso, encontrar elementos estruturais que possam gerar outras coisas. Constatamos também que seria essencial conhecer e conversar mais sobre a obra do cara, antes de prosseguir.

Quanto ao trabalho em si, todos manifestaram um desejo comum de ir no caminho inverso de processos de criação anteriores, em que a encenação é uma proposta artificial, de emergência, imposta pela falta de tempo, e todo o material produzido durante o processo é cortado e socado para caber em uma estrutura estranha, a cena.

Decidimos então por passar os dias seguintes discutindo e trazendo referências para tentar chegar ao final da semana com um roteiro, que poderíamos testar, modificar e até substituir nos próximos meses. Esse roteiro não precisa ser uma sequencia de ações, mas uma estrutura de encenação, que pode ter formatos variados, desde uma estrutura de jogo, instruções, um contexto de improvisação, etc.

2o. dia

Concluímos que, mesmo tendo interesse no restante da obra do Burton como referência, é importante a gente se ater ao livro, que tem características bem específicas e foi o interesse inicial. Fizemos o exercício de tentar definir alguns elementos que pareceram importantes:

1) Os textos são independentes entre si.

2) São poemas, com rima e métrica, e isso gera limitações (a história tem que caber na melodia).

3) Os personagens são pessoas comuns com uma característica distoante (O Rapaz Ostra é um cara comum, só que é uma ostra; A rapariga de olhos fixos é uma menina comum, só que tem olhos fixos, etc. Foi daí que a gente começou a chamar esse elemento distoante de o "só quê").

4) Cada texto tem um protagonista, e assim o livro é um grupo de protagonistas, independentes entre si, que convivem, ou não convivem, ali.

Isso começou a nos chamar a atenção para essa possibilidade de conviver ou não conviver. Nos pareceu que seria legal pensar sobre isso. Como funcionaria, dentro de um teatro, colocar pessoas no mesmo espaço sem que elas convivam? É possível?

E outra questão que surgiu foi essa de produzir rimas que não dependam de texto. Seria possível rimar imagens, sons, ideias, personagens?

3o. dia

Começamos dando uma olhada no catálogo da exposição do Tim Burton que está no MoMa, em Nova Iorque.

Assistimos também a uma entrevista dele, que está no Youtube:


E, depois, vimos os seis episódios do The world of Stain Boy, que são animações que ele fez com os personagens do livro, que agora aparecem se relacionando.







A partir daí, fomos delineando algumas características da obra dele, por exemplo, as cores que remetem a um universo fantástico, essa mistura entre infantil e tétrico, a sensorialidade.

Voltando às questões do dia anterior, assistimos a outros dois vídeos, dois episódios de Aeon Flux. O primeiro chama War, e indica algumas possibilidades de convivência entre protagonistas, ou de um contexto comum que permite que eventos independentes se desenvolvam.


O segundo chamava Tide, e indicava uma possibilidade de rimar sem usar texto:

Depois disso, assistimos ao Big Fish, que é um dos poucos filmes do Tim Burton que a gente não lembrava direito.

4o. dia

Começamos a conversa fazendo uma lista dos nossos fetiches em relação à peça. Esses fetiches seriam coisas possíveis e impossíveis que cada um de nós tem vontade de fazer, mesmo que não tenham muita relação com o que a gente está discutindo, mas que sejam desejos, vontades que a gente gostaria de materializar em cena.

Aí vão alguns:

Gustavo: Vomitar sangue artificial.
Neto: Usar sangue artificial, mas pra levar tiros.
Beti: Uma parede que levasse um tiro e sangrasse.
Gustavo: Mostrar ângulos impossíveis de serem vistos, como num filme, quando a câmera está embaixo dos pés, ou em algum lugar em que uma pessoa não poderia estar.
Beti: Aprender a atirar facas.
Beti: Atirar uma flecha que atravessasse pelo meio do público e atingisse algo no palco.
Beti: Um número musical.
Gustavo: Falar texto teatralmente.
Gustavo: Usar figurino de teatro.
Beti: Alguma coisa relacionada a um boneco vodu, construir um boneco vodu, espetar alguém, ser espetada.
Gustavo: Usar uma pessoa de fora do elenco que tenha características físicas específicas, um anão, ou gêmeas siamesas, ou aquelas meninas chinesinhas da lanchonete do lado, ou um gigante, etc.
Gustavo: Uma jiboia que viesse do fundo do palco, se enrolasse no performer, e seguisse em direção ao público.
Neto: Luzinhas de natal que fossem como uma parte do corpo, como espinhas ou pelos.
Neto: Ser uma pessoa que se conecta à tomada.
Gustavo: Construir uma música a partir dos sons da cena.
Beti: Jogar uma massa no teto do teatro, que ficasse invisível ao público durante muito tempo, e só depois começasse a escorrer.

Depois lemos alguns trechos de textos que estavam no catálogo do MoMa. Surgiram algumas referências legais, como o surrealismo pop e a lowbrow art (o curador cita especificamente a relação com artistas como o Mark Ryden). Outras características que os textos mencionavam que a gente achou importantes foram esse interesse por personagens que são criaturas (o próprio Tim Burton falava isso), e também o uso de máscaras e a modificação do corpo.

A partir daí fizemos o exercício de tentar voltar o foco para o livro, tentando definir, mesmo que provisoriamente, o que ele apresenta, para depois elencar algumas das estratégias de encenação que a gente foi pensando no decorrer da semana.

A lista do que o livro contém ficou assim:

1. Textos autônomos curtos.
2. Cada texto abriga um evento.
3. Todo texto tem um protagonista.
4. Potencia da rima e da métrica.
5. Personagem com algo de humano e algo de criatura, sempre com alguma característica distoante
6. Corpos com uma sensorialidade bizarramente específica.
7. Espacos sem parâmetros. Nao ha descrições espaciais ou de nenhum contexto que não sejam estritamente necessárias ao evento descrito.
8. Isolamento a partir de uma única perspectiva.
9. Um universo infantil, fantástico e tétrico.

Depois a gente listou algumas das ideias ou estratégias de encenação que ja tinham surgido nos dias anteriores.

a. Uma ideia de um concurso, de tudo fazer parte de um concurso.
b. Um contexto circense, com números (no sentido espetacular).
c. A questão de conviver ou não conviver.
d. Produzir rimas com elementos não textuais.
e. Transpor para a cena, alem da formalidade do poema, uma abordagem poética.
f. Ações que nascem e morrem (ações que surgem, se desenvolvem e têm uma conclusão).
e. Personagens com universos sensoriais específicos.

Aí, a tarefa foi de tentar relacionar essas estratégias com os elementos do livro, para ver o que estava faltando ou sobrando. De que maneira essas ideias que a gente teve para a encenação conseguem se relacionar com o livro, ou com os elementos do livro que a gente optou por recortar.

As correspondências que encontramos foram essas

a) 9, 3
b) 6, 5, 9
c) 3, 1, 8, 7
d) 4
e) 4
f) 1, 2
g) 6, 5, 3, 9

Opá, e aí? Beleza?

Este blog vai retratar um pouco do desenvolvimento do projeto O rapaz e a rapariga, que será levado adiante pelos artistas do coletivo Couve-flor, em Curitiba e, se tudo der certo, vai nos levar à apresentação de uma peça no Teatro Novelas Curitibanas, em fevereiro de 2010, além de outros momentos em que o estúdio será aberto para que outras pessoas possam ver o que a gente anda fazendo, opinar e nos ajudar a pensar.

O projeto está sendo financiado pelo Fundo Municipal de Cultura, por meio do Edital de Pesquisa e Criação em Artes Cênicas, e parte da obra do diretor Tim Burton, mais especificamente do livro The melancholy death of Oyster Boy and other stories (que, na tradução lusitana, ficou A morte melancólica do rapaz Ostra e outras estórias). O livro traz pequenos poemas que contam histórias de pessoas que tem, cada uma, alguma coisa de diferente. Ilustrando as histórias estão os desenhos do próprio autor.

Aqui vai ser um lugar onde podemos registrar como as coisas estão caminhando e receber ideias de todos que se dispuserem a ler e participar. Então, se você tiver vontade, por favor, deixe os seus comentários, ok?